A cidade que deu nome a um mar
Adria fica hoje a cerca de 25 quilómetros do mar, embora tenha muito provavelmente dado nome a todo o Adriático. O ADRIKÀ segue o percurso da água através da arqueologia, da paisagem e do cinema, até chegar a um barco romano que foi realmente cosido.
Quem quiser ir de Adria até ao mar é melhor não se limitar a pegar na toalha e começar a andar. Hoje, cerca de 25 quilómetros separam esta cidade do norte de Itália da costa do Adriático.
E isso é particularmente surpreendente em Adria. Afinal, foi muito provavelmente esta cidade que deu nome a um mar inteiro: o Adriático. No início, o nome designaria apenas a parte norte do atual mar Adriático. Mais tarde, foi-se estendendo para sul, até passar a designar todo o mar entre Itália e a Península Balcânica. A origem do nome, porém, não está totalmente esclarecida: a antiga Hadria, hoje Atri, nos Abruzos, é também apontada como outra possibilidade.
Mas se Adria esteve outrora tão ligada ao mar, para onde foi o mar?
### Quando um rio muda o mapa
Há cerca de 2500 anos, a paisagem era diferente. Adria ficava perto de uma lagoa e estava bem ligada ao mar por vias navegáveis. Nos séculos VI e V a.C., a cidade tornou-se um porto importante. Por aqui passavam mercadorias gregas com destino à planície do Pó; vinho, azeite, cerâmica, metais, sal e âmbar faziam parte de uma rede comercial que ligava Adria a regiões distantes.
Mas os rios não transportam apenas água.
O Pó e outros rios da região levam até ao mar areia, lodo e outros sedimentos. Ao longo de séculos e milénios, esses materiais vão-se depositando. Formam-se novas terras, os braços dos rios mudam de curso, as lagoas vão ficando assoreadas e a linha de costa desloca-se. Entre a antiga Adria e a costa atual encontram-se até antigos cordões de dunas — vestígios de linhas costeiras do passado.
O nome do mar ficou.
A cidade também.
Só o mar se afastou.
### Arqueologia numa paisagem de água
É precisamente esta paisagem tão particular que está no centro do ADRIKÀ, o Festival Internacional de Cinema Arqueológico de Adria e do delta do Pó, de 9 a 13 de setembro de 2026. Mais de 40 iniciativas distribuem-se por Adria e outras localidades da região: filmes de vários países, conversas com arqueólogos e realizadores, exposições, visitas guiadas, oficinas e visitas a escavações arqueológicas.
O tema desta segunda edição dificilmente poderia ser mais adequado: a água.
E não se trata apenas de rios e mar. A água fala também de viagens, memória e da forma como as pessoas utilizam e transformam esta paisagem há milhares de anos.
E, por vezes, a arqueologia encontra coisas que nos obrigam a olhar duas vezes.
Por exemplo, um barco cosido.
### Espera – é possível coser um barco?
Sim.
No início da década de 1980, foi escavado em Corte Cavanella, perto de Loreo, o fundo de uma embarcação fluvial romana. É constituído por três pranchas de madeira colocadas lado a lado. Ao longo das bordas, os arqueólogos encontraram orifícios dispostos a intervalos regulares.
Por esses orifícios passavam cordas feitas de fibras vegetais. Juntamente com material vegetal usado para vedar as juntas, mantinham as pranchas unidas.
O barco era, portanto, realmente cosido.
A parte conservada tem pouco mais de quatro metros de comprimento e apenas 85 centímetros de largura. Depois de restaurada, encontra-se hoje no Museu Arqueológico Nacional de Adria. Para o ADRIKÀ, é quase um símbolo: um objeto que fala de pessoas que se deslocavam por uma paisagem aquática em que Adria ainda estava diretamente ligada ao mar através de rios e lagoas.
### Quando as imagens antigas voltam a ganhar movimento
O ADRIKÀ junta estas descobertas a um meio que, à primeira vista, parece muito mais moderno: o cinema.
Durante o festival, o museu inaugura uma exposição com o título italiano «E l’immagine prese vita» – «E a imagem ganhou vida». A exposição percorre a longa história das tentativas humanas de representar o movimento através de imagens, desde os vestígios arqueológicos até às técnicas que acabariam por dar origem ao cinema.
O ADRIKÀ reúne arqueologia, cinema e água num lugar onde até a própria paisagem conta uma história de movimento. Os rios mudam de curso. Os sedimentos criam novas terras. Uma cidade portuária perde gradualmente o contacto com a costa. Os arqueólogos trazem de novo à luz um barco cosido. E os filmes fazem pessoas, lugares e descobertas ganhar vida diante dos nossos olhos.
Adria é, por isso, um lugar especialmente adequado para um festival sobre arqueologia e água. As paisagens mudam, mas os nomes conseguem viajar durante um tempo surpreendentemente longo. O nome desta pequena cidade italiana surge em grande destaque nos mapas como designação de um mar inteiro.