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Descobrir a cultura europeia · 27 de setembro de 2026

Mãos, rosto, olhar e espaço

Vinte minutos, duas performers e nenhuma página para virar: na Feira do Livro de Gotemburgo, Amina e Jamila Ouahid mostram como a literatura pode nascer das mãos, do rosto, do olhar, do ritmo e do espaço. Um breve momento em palco acaba por abrir uma pergunta muito maior: quantas formas pode assumir o ato de contar?

Ilustração a lápis de cor de Amina e Jamila Ouahid em palco. Estão frente a frente e comunicam com as mãos, o rosto e a postura corporal; em primeiro plano veem-se as silhuetas escuras do público.
Uma ilustração a lápis de cor evoca o trabalho em palco de Amina e Jamila Ouahid: mãos, rosto, olhar e espaço tornam-se parte da narrativa. Fonte da imagem: ISKRA SMOKA com recurso a inteligência artificial

Numa feira do livro esperamos, naturalmente, encontrar livros. Mas neste domingo, em Gotemburgo, também se lê, representa, desenha e conversa sobre as formas que uma história pode assumir. Às 11h30, Amina e Jamila Ouahid sobem à Dramascenen. Têm vinte minutos, das 11h30 às 11h50.

Mal dá para um café. Talvez, porém, seja tempo suficiente para abalar uma ideia bastante básica sobre aquilo a que chamamos literatura.

Um palco sem carro

Uma mulher conduz um carro. Pelo menos é isso que vemos. Em palco não há carro, volante nem estrada. Ainda assim, a postura, as mãos, o rosto e o olhar podem bastar para fazer surgir uma viagem.

Amina e Jamila Ouahid trabalham, entre outras formas artísticas, com Visual Vernacular, ou VV. Numa obra anterior, Unexpected Moment, uma das irmãs torna-se a condutora, enquanto a outra assume a paisagem, os objetos e outros elementos da cena. A narrativa, com cerca de minuto e meio, usa mudanças de perspetiva, ritmo, repetição e expressão corporal de forma tão cinematográfica que um estudo académico identifica explicitamente recursos como zoom e grande plano.

A condutora percebe que está atrasada, acelera e sofre um acidente. Para nós, porém, é pelo menos tão interessante perceber como a história é construída: uma irmã pode ser a personagem enquanto a outra se transforma simultaneamente em ambiente ou objeto. Um movimento altera a distância; uma mudança de postura altera a perspetiva.

Não há carro. Não há câmara. E, no entanto, vemos uma viagem e algo que se aproxima muito da linguagem do cinema.

Afinal, quem está a contar?

Visual Vernacular pode por vezes lembrar a pantomima. Também aí se abrem portas que não existem, objetos invisíveis ganham peso e uma sala inteira pode nascer num palco vazio.

Noutros momentos, VV pode fazer lembrar o teatro de improvisação. As pessoas reagem umas às outras, os papéis mudam e uma situação pode transformar-se por completo em poucos segundos. Mas não é simplesmente improvisação sem palavras faladas.

No teatro de improvisação, grande parte do prazer está muitas vezes em acompanhar a forma como uma história cresce a partir de impulsos espontâneos. Visual Vernacular, pelo contrário, pode ser cuidadosamente composto e ensaiado; a questão artística passa então mais por como tornar visível uma ação, uma perspetiva ou um ritmo.

O corpo pode representar uma pessoa e, no instante seguinte, tornar-se outra coisa. Um olhar pode determinar onde algo acontece no espaço. Uma mudança de velocidade pode criar aceleração, uma repetição dar peso, e uma breve pausa tornar-se tão nítida como um ponto final.

Aquilo que o cinema faz com câmara, corte e montagem pode aqui nascer do corpo e do espaço.

Duas pessoas e o espaço entre elas

Amina e Jamila acrescentam ainda outra possibilidade: contam juntas. Por isso, o espaço entre as duas também se transforma em matéria narrativa.

Podem olhar uma para a outra ou para além uma da outra. Uma inicia um movimento e a outra pode retomá-lo, responder-lhe ou contrariá-lo. Proximidade e distância alteram uma relação sem que seja necessário construir um cenário.

De repente, uma história não é feita apenas de mãos. Também contam o rosto, a postura, a direção do olhar, a velocidade do movimento e a interação entre as duas performers. Até o espaço vazio entre elas pode ganhar significado.

É precisamente disso que trata o programa de 27 de setembro de 2026 na Feira do Livro de Gotemburgo. «Teckenspråkskonst – Litteratur i rörelse» apresenta a arte em língua gestual como uma prática literária e artística. Através de exemplos em palco e de conversa, Amina e Jamila Ouahid mostram como histórias, poesia e memória cultural podem existir numa forma visual, corporal e espacial.

Em que página está o poema?

Com um poema impresso, a resposta parece simples ao princípio. Podemos ler um verso, voltar atrás e lê-lo de novo. Podemos sublinhar uma palavra, fechar o livro e abri-lo amanhã no mesmo lugar.

Mas em que página está um poema cujo ritmo nasce do movimento?

Em nenhuma.

A língua gestual sueca é uma língua por direito próprio, mas não dispõe de uma forma escrita de uso geral que funcione como a escrita habitual de um livro. A arte em língua gestual não consiste, por isso, em pegar simplesmente num texto sueco e traduzi-lo gesto a gesto com as mãos.

As mãos podem transportar significado linguístico, mas o rosto e a postura também fazem parte da forma. O olhar pode estabelecer relações espaciais, a repetição criar ritmo e o movimento acelerar, abrandar ou interromper-se. Visual Vernacular acrescenta ainda recursos visuais e cinematográficos particularmente fortes.

Uma atuação pode ser filmada. Pode ser descrita, analisada ou traduzida. Mas uma parte da obra continua ligada ao movimento, ao tempo e ao espaço.

Talvez seja essa a verdadeira pergunta deste domingo na feira: não onde termina a literatura, mas quantas formas pode assumir o ato de contar.

Uma feira do livro para lá do livro

A Feira do Livro de Gotemburgo está, evidentemente, cheia de livros. As pessoas leem, conversam, folheiam, dão autógrafos e procuram histórias que querem levar para casa. Ao mesmo tempo, a Dramascenen abre espaço a algo que não pode simplesmente ser guardado entre duas capas.

Amina e Jamila têm vinte minutos. Não é preciso compreender cada gesto para reparar em algo fundamental: um olhar ganha direção, um movimento ganha ritmo, dois corpos criam relações e um palco vazio começa a significar alguma coisa.

Depois, os vinte minutos acabam. Nas outras salas continuam as conversas e as leituras, as pessoas percorrem os pavilhões, e Amina e Jamila deixam o palco.

O espaço volta a ficar vazio. A história está contada.